Continuando a série “10 dicas para não errar na escolha da tipografia”, vamos falar sobre hierarquia. Mas calma lá, não é aquela hierarquia de “você escolhe a fonte o seu diretor manda trocar”, nem de “você escolhe, mas quem manda é o cliente”. Abordaremos a hierarquia como um princípio do design e, assim sendo, como ela pode influenciar na escolha do tipo ou da família a ser utilizada em um projeto, seja ele um página simples um um gigantesco anuário de trocentas páginas.

Mas primeiro, vamos aos conceitos relacionados a hierarquia.

Hierarquia ou jerarquia (do grego hierarchía) é a ordenação de elementos em ordem de importância, podendo significar também, mais especificamente: a distribuição ordenada de poderes; a graduação das diferentes categorias de funcionários ou membros de uma organização, instituição ou igreja; e a ordenação de elementos visuais para tornar a informação mais facilmente inteligível ou para destacar elementos de uma composição.

Para o design, e para a tipografia, a última definição é a que importa. Afinal, design nada mais é do que essa ordenação visual, com um propósito (função) pré-definida que limita e desafia a encontrar a solução correta, ou a mais adequada. É importante lembrar: bonito ou feio não importa – gosto e não gosto tão pouco – no design (bem feito) lidamos com o certo e errado.

Mas e aí, como funciona na prática?

Bom, não é tão difícil quanto parece, é a apenas uma questão de conhecer a estrutura tipográfica. Como já falamos, cada tipo projetado atende uma função específica. Existem tipos para texto, tipos para título, tipografia experimental, caligráfica e outras variantes. O que define essa função são características como altura do corpo, altura de x, estilo e afins (em breve falaremos mais sobre isso).

Baseado nessa estrutura, darei o exemplo de três formas hierárquicas dentro da tipografia, ilustrando e facilitando a compreensão. É claro, existem outras, todos os dias se projetam novas soluções e isso não terá fim. Essa é a graça do design, partir de bases e projetar sempre novas interfaces visuais.

Então, vamos a elas.

Hierarquia baseada no tamanho do corpo do texto.

O mais simples e direto conceito de hierarquia, consiste em dividir as informações e dar “pesos diferentes” a cada verbete, ou seja, normalmente seu título deve estar maior que o corpo de texto, que deve ser ligeiramente mais destacado que legendas, créditos e afins. Funciona bem para informações mais simples, conteúdos menos densos e projetos mais limitados. No início pode parecer meio sem graça, mas se escolhermos uma tipografia relevante visualmente, podemos gerar interfaces bem interessantes.

Utilizando somente a Helvetica em diversos tamanhos de corpo é possível chegar em um resultado hierárquico satisfatório.

Hierarquia abordada em estilos diferentes dentro da mesma família tipográfica.

Normalmente, dentro de uma mesma família, encontramos ao menos pesos clássicos como normal, bold e italic – se está usando uma fonte que não tenha ao menos essas configurações, exceto tipos para títulos ou experimentais, aborte a missão e procure uma família um poucos mais “digna”(rs). Hoje porém existem famílias bem mais completas e até aquelas que chamamos de super famílias (já falei disso aqui). Com pesos e estilos quem vão do ultra thin ao ultra black, possibilitam uma hierarquização completa e adicionam muito estilo e peculiaridades a um projeto bem feito. A hierarquia por meio desse conceito é ideal para projetos mais densos, onde se necessitam variantes de legendas, idiomas, destaques de texto e afins, mas que precisam manter a simplicidade em busca de uma continuidade na leitura e um alto reconhecimento do projeto gráfico por trás do design.

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Famílias como a Abril Text oferecem uma ampla gama de estilos e pesos tipográficos. Ao optar por uma tipografia como essa o designer ganha em possibilidade de hierarquização, projetando produtos mais agradáveis e coerentes.

Hierarquia fundamentada em famílias divergentes.

Imagine agora ter todas as vantagens da hierarquização com um só estilo, alterando o corpo, juntamente com as possibilidades de grandes famílias. Tudo isso usando uma, duas ou até mais fontes diferentes. Certamente teremos projetos mais elaborados visualmente mas, cuidado, o exagero sempre leva a desconstrução da compreensão e, consequentemente, destrói a hierarquia. Portanto, apresento a vocês o que chamo hierarquia baseada em famílias divergentes, que nada mais é do que a contraposição de estilos. Ou seja, se no títulos utilizamos uma slab cheia de personalidade, o texto pode ser composto em uma serifa clássica, legendas com a mesma serifa em versão itálica e box, créditos entre outros como uma sans serif humanista.

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Abril Text (serifada) em conjunto com a Gotham (sanserif), ambas com diversas possibilidades de variação. Ao unir dois estilos divergentes podem acentuar a hierarquia e possibilitar a inserção de informações diversas e completas dentro da página.

Agora, comece a imaginar. Em cima dessas possibilidades adicione cores, elementos gráficos, fotografia e ilustração, conteúdo, forma e função. Mas, mais uma vez cuidado, lembre-se que na busca de um design dinâmico, menos é sempre mais, e sempre é válido estudar a fundo as concepções clássicas para depois desconstruir e contestar as técnicas. É assim que se projeta um bom design (ao menos deveria ser).

Até a próxima!

Lucaz Mathias
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