Dia desses, ao preparar mais uma aula para a disciplina de introdução ao design gráfico dentro do curso de Publicidade e Propaganda, me deparei com algumas anotações em apresentações mais antigas onde relembrei um grande problema das aulas de tipografia – dúvidas tanto de quando eu estudava, quanto das turmas que venho lecionando.

A pergunta ”existencial”, que já deve ter ocorrido a todos, é:

Ok, tem tudo isso sobre anatomia dos tipos, eixos de construção, história e mais um monte de coisa. Informações difíceis e que demandam um longo tempo de estudo, mas não existe um jeito mais fácil de não errar na escolha da tipografia?

E a motivação por trás dessa pergunta, e de uma série de posts que virão a seguir, também é óbvia:

Afinal, só se apaixona por todos esses elementos imprescindíveis na construção do tipo quem consegue, mesmo que minimamente, ter uma boa relação com o uso dos mesmos. Só irá se aprofundar no mundo da tipografia quem se deixar inundar por esse universo. E, como facilitador, apaixonado e aprendiz é preciso procurar maneiras mais eficazes (ou agradáveis) de despertar essa “consciência tipográfica”.

Com problema e hipótese em mãos resolvi arriscar e traçar algumas dicas básicas de como selecionar fontes para um projeto. É claro, sempre haverão divergências, outras opiniões e até mesmo os que dizem “não é pra ser mais agradável” (rs). Portanto, vamos para uma sequência de 10 posts aqui no DV –lembrando que nada é definitivo mas, se funcionou pra mim, pode funcionar pra vocês.

Ah, ia me esquecendo, os pontos que vou abordar nessa série de post são: contraste, hierarquia, repetição, legibilidade, leiturabilidade, entrelinha, largura da linha, cor do texto, personalidade e diferenciação.

Então, que tal começar pelo contraste?

Toda vez que falamos em contraste logo pensamos em cores– na relação entre elas–, mas aqui, passaremos longe disso. O contraste para a tipografia pode ser compreendido de duas maneiras distintas, o contraste da fonte em si e o contraste entre as fontes e estilos dentro do leiaute.

Avaliando a própria fonte devemos observar a relação que existe entre os traços grossos e finos. Existem fontes com alto contraste, como Times New Roman, e como nenhum de contraste, como a Helvetica. Mas o que isso tem a ver com a utilização e escolha da fonte?

Bom, quanto mais equilibrado o contraste da tipografia, mais ela facilitará a leitura, pois conseguimos distinguir melhor cada uma das letras e sua disposição entre as linhas. Deem um olhada nas figuras abaixo.

contraste

A diferença no contraste é nítida entre corpos de títulos e a massa de texto. Tipografias com contraste mais equilibrado facilitam o acondicionamento de textos mais longos por distinguir melhor os elementos de cada uma das letras.

Fontes como a Times são ideais para aplicações com corpo de texto pequeno e conteúdo extenso, pois seu contraste garante o conforto da leitura. Já na Helvética, e em outras famílias com a mesma ausência de contraste, é preferível a utilização em textos curtos e títulos com corpos maiores. A ausência da variação dos traços tende a cansar o leitor e enfraquecer a compreensão dos textos.

Ainda existem os contrastes exagerados. Observe por exemplo a clássica Didot, seu contraste é tão acentuado que pode causar problemas de reprodução em corpos menores que 9pts para materiais impressos. Na tela de computadores e outros gadgets esse tipo de contraste tende a ser instável. Portanto, deve ser usado como extrema cautela, apesar do alto contraste.

contraste-2

Por conta da grande diferença entre traços grosso e finos, quanto menor o corpo, mais difícil de se observar e reproduzir os belos detalhes da Didot. Em corpos muito pequenos, esse contraste, tende a dificultar a leitura.

Agora vamos ao contraste entre estilos e fontes dentro de um projeto.

Para que o um leiaute ou qualquer outro projeto se torne interessante para o usuário é preciso criar uma composição que não seja monótona, dura ou previsível. Em um mundo altamente imagético precisamos ser ainda mais contundentes nessa questão. Portanto, seja em um livro, uma revista, um site ou até mesmo um logotipo, criar contraste dentro do projeto é essencial. Por isso evite utilizar variações de estilos e tipos imperceptíveis. A boa combinação de fontes com contraste equilibrado para texto, contraste exagerado ou sem contraste algum para títulos, legendas, leads e afins é que irá ajudar a tornar seu projeto interessante.

No livro "Minha vida comigo" editado para escrito portuguesa Vânia Castanheira, o contraste entre dois pesos – light e extra bold – da Gotham, ambos com diferenças mínimas na espessura dos traços, em relação ao alto contraste da tipografia de serifa clássica Georgia, cria o movimento ideal para quebrar as limitações de cores do projeto.

No livro “Minha vida comigo” editado para escrito portuguesa Vânia Castanheira, o contraste entre dois pesos – light e extra bold – da Gotham, ambos com diferenças mínimas na espessura dos traços, em relação ao alto contraste da tipografia de serifa clássica Georgia, cria o movimento ideal para quebrar as limitações de cores do projeto.

Esse contraste ainda será essencial para fundamentar outras dicas como hierarquia e repetição, mas isso é papo para o próximo post.

No projeto gráfico desenvolvido juntamente aos alunos da Univap-SJC para o jornal universitário Foca em Foco o contraste de diversos estilos deixa clara e eficaz a hierarquia da informação dentro de cada página, além de colaborar com a continuidade dentro do projeto gráfico.

No projeto gráfico desenvolvido juntamente aos alunos da Univap-SJC para o jornal universitário Foca em Foco o contraste de diversos estilos deixa clara e eficaz a hierarquia da informação dentro de cada página, além de colaborar com a continuidade dentro do projeto gráfico.

Lucaz Mathias
contato@estudiocao.com.b